A oeirensidade do Baiano ‘cabeça-fria’

– Tem de tamarindo? – grita um freguês do outro lado da porta

– Não, hoje não tem. Vou ter amanhã… – responde, enquanto nos recebe na varanda de sua casa

Em Oeiras, todo mundo chama de ‘chupa-chupa’ o produto que José Antônio de Santana Santos, o popular “Baiano”, fabrica e vende há mais de 33 anos – “trinta e três, trinta e quatro…nessa faixa aí”, estima o carismático vendedor. Ele prefere chamar de ‘cabeça-fria’, os sucos gelados no saquinho que há tempos fazem a alegria de oeirenses de todas as idades.

“Pensei que aqui não tinha, que alguém não tinha lançado isso aí, mas tinha: Seu Antônio Carlos [ Valentim], veio aquele Zé Filho [Nunes], que trabalha na Fazenda, acho até que é aposentado agora. E por último chegou eu, e aí eu segurei: cai aqui, cai ali…a gente nunca pode desistir dos nosso sonhos, né”, conta Baiano sobre o início das vendas do ‘chupa-chupa’ em Oeiras.

Natural de Santo Amaro da Purificação – terra natal de figuras ilustres como Caetano Veloso, Maria Bethânia e Dona Canô – Baiano veio morar em Oeiras há 36 anos. “Cheguei aqui em oitenta (1980). Tive a felicidade de me casar com uma filha daqui. Conheci ela em Brasília. Na época, tinha saído de Salvador para Brasília, pra trabalhar lá numa firma de construção e eu conheci a minha esposa. Retornando à Bahia, fiz um convite a ela…se gostaria de conhecer e ela respondeu: ‘Puxa! Meu sonho é a Bahia’. E levei para Bahia e nós casamos, em Salvador, no fórum Rui Barbosa. Casamos em setenta e cinco (1975)”, relembra.

“Aí vim conhecer aqui e gostei pra caramba daqui, e disse: ‘rapaz, isso aqui é minha casa, essa cidade – pequena, bacana, bem urbanizada. Naquela época o prefeito daqui era Doutor Waldemar [Pedro Waldemar de Reis Freitas, ex-prefeito de Oeiras]”, recorda o vendedor.

Antes de vender os tradicionais ‘chupa-chupas’, José Antônio foi cobrador de ônibus e vendedor de verduras, mas não tem boas lembranças deste período.  “Quando cheguei aqui trabalhei na empresa Líder, fui fazer linha de Teresina praqui, acho que eram dois carros antigamente. A agência era ali onde era a antiga Caixa Econômica [na Avenida Zacarias de Góis]”, narra.

“O cara trabalhar de empregado aqui é que nem um cachorro, não tem vez, os patrões não dão valor…Então ou você faz uma coisa da sua cabeça ou senão o bicho se acaba. Vai embora daqui…complemente, porque aqui patrão não dá camisa pra ninguém. Foi onde eu me inspirei nisso aí: o cabeça-fria [chupa-chupa]”, conta.

“Aí vi que trabalhando de empregado não dava. Comecei a vender verdura e tal, mas depois eu digo: não dá, verdureiro quebra muito…Tinha que trazer de Teresina praqui e tal, quebra muito, dá muito trabalho…Foi quando eu lancei o cabeça-fria, comecei a experimentar aquilo ali numa caixetazinha de isopor, aí eu vi que tava saindo. Por sinal, quando eu lancei, botei a propaganda do Zé Filho [concorrente à época]: ‘chupa-chupa, lambe-lambe, mete-mete’”, diz Baiano, sobre a propaganda que tornou popular o produto que vende até hoje.

“Mas vi que era muito pesado…Alguém até me repreendeu sobre essas palavras. Parei para pensar e vi: cara, realmente é pesado…Vou botar um negocinho mais brando, que todo mundo hoje em dia só anda de cabeça quente. Digo: vamos esfriar a cabecinha, fica melhor, né. Mais maneiro, evita problema. Aí botei cabeça-fria e fui me firmando, aos poucos…chamando muito por Deus, você sabe que as coisas de Deus são devagar. Devagar, levantando aos poucos…”, narra o comunicativo vendedor, entregando que aprendeu a fazer o cabeça-fria na Bahia.

“La dá muito isso aí, só que não dá congelado, só gelado, frio e aí eu vi que aqui não dava, tinha que ser congelado, porque aqui é muito quente”, comenta.

Motel Cabeça-fria

Nos anos noventa, quando já era um vendedor popular da guloseima gelada, Baiano decidiu se aventurar por outros mercados. “Teve um tempo também que eu andei com um bar, depois parei com o bar, fiz uns quartinhos lá pra baixo, que eu dei o nome de motel. O primeiro motel registrado aqui em Oeiras foi o meu. O pessoal conheceu primeiro foi o meu”, revela Baiano.

“Funcionava na rua debaixo, Natu Reis, antiga rua principal da Várzea. Hoje em dia a principal é aqui, a Gerson Campos [referindo-se à rua onde mora]. Antigamente era lá…lancei, graças a Deus, peguei uma clientela beleza, um movimento bacana, o pessoal me conheceu demais, mas depois apareceu esses daí e eu caí fora, não pude competir com eles”, conta o Baiano, sobre o empreendimento que também levava o nome de “cabeça-fria”.

“Isso foi já em noventa, depois do plano real, o plano real foi em noventa e quatro (1994). Segurei ainda por 12 anos”, desfecha. Hoje, no endereço onde funcionava o motel mora um filho de Baiano. “Tive que entregar pra ele, porque casou, tava morando de aluguel…Eu digo: não, tem uma casa vazia, aí entreguei pra ele morar”, diz.

Ele tem dois filhos, um casal. O filho é professor e a filha atualmente mora na Bahia, tem três filhos. “Por enquanto tenho quatro netos, três homens e uma mulher”, comenta sobre seus descendentes.

‘Antigamente, sonho de pobre durava pouco…’

Com irmãos, tias e sobrinhos por lá, José Antônio sempre retorna à Bahia. “Vou uma vez no ano ou duas na Bahia. Vou comprar aquela matéria-prima [saquinho do chupa-chupa] pra preparar o produto. Tem que ser comprado lá na Bahia, sabe. Vou em Feira[ de Santana]. Passo na casa dos parentes pra matar as saudades quando dá tempo”, comenta, nostálgico.

Dono de uma voz envolvente, Baiano diz que sonhava ser locutor de rádio quando era criança. “Quando eu era pequeno meu sonho era ser radialista. Quando via um locutor narrar futebol ficava doido – “rapaz, vou ser um narrador”. Naquele tempo dava muito rádio, futebol era mais na rádio”, diz, entre risadas.

“Mas como, antigamente, sonho de pobre durava pouco…Antigamente o pobre não podia formar um filho, hoje, graças a Deus, já pode formar um filho, já pode ser um doutor, o que ele quiser ser na vida. Antigamente não podia, a gente tinha que trabalhar muito pra ajudar na família. Na minha família era nove filhos, eu era o terceiro dos mais velhos, então os mais velhos tinha que trabalhar pra ajudar os menores, na sobrevivência dos menores. Minha vida foi só batalhar, trabalhar”, diz José Antônio, que hoje tem um filho formado.

“Vamos esfriar a cabecinha?!”

Aos 65 anos de idade, Baiano reside numa casa simples, no Bairro Várzea com sua esposa e um neto. “É o caçula da minha filha que mora na Bahia, tá estudando aqui”, comenta. A esposa, Francisca, o ajuda na fabricação dos chupa-chupas. “Abaixo de Deus, se não fosse ela eu tava frito, é meu braço direito. Me ajuda muito”, reconhece.

Mesmo aposentado, Baiano não pensa em parar de vender os sucos gelados. “Acordo quatro e meia da manhã e quando vou sair pra rua é lá pra nove, nove e meia, dez horas do dia. Quando a temperatura começa a subir”, diz.

Há três décadas comercializando o mesmo produto e fazendo a propaganda mais conhecida da cidade (“vamos esfriar a cabecinha?!”), ele segue praticamente a mesma rotina de segunda a sexta – acorda cedo, sai e só volta pra casa por volta das seis da tarde. “Rodo aqui no centro. Não mais podendo rodar como eu fazia, porque as pernas começam a pesar. Aí começo a circular só aqui no centro. No lugar que tenho minhas freguesias, encosto. Pessoal do interior e tal, ainda tenho uma freguesia ali certinho. Mas antigamente eu rodava quase a cidade inteirinha, quando tava mais novo. Com a idade a gente vai encurtando mais o movimento”, diz com simpatia o Baiano do chupa-chupa, uma das figuras mais queridas e populares de Oeiras.

Jadson Osório

Repórter

8 Comments

  1. Me orgulho muito do meu tio…ele sim é um grande exemplo…..que Deus continue abençoando grandiosamente.. te dando muita saúde para continuar batalhando
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  2. Adjomar 27 de dezembro 2016 tai um exemplo de pessoa humana amigo que sempre encontro em Oeiras Pi, e já ganho o dia quando converso com ele fica tudo mais alegre,.ele tem uma Luiz boa. valeu cabecinha fria continuai a sim amigo e gente boa como vc é. um feliz natal e um bom ano novo pra vc e sua familiar

  3. Pessoa admirável. Tenho 31 anos, atualmente moro em SP, mas me lembro muito bem de quando tinha meus 9 anos e meu pai não tinha dinheiro para comprar um chupa-chupa, pena que não vi o baiano quando estive em Oeiras em 2014.

  4. Esse baiano é gente boa tinha muitos anos que não via sai de Oeiras em 1992 sempre lembrava dele era criança meu pai sempre comprava o chupa chupa,em 2015 fui em Oeiras encontrei ele na feira fiz questão de compra dois e bater um papo com ele,procurou aonde eu morava falei pra ele me agradeceu de eu ter lembrado dele.

  5. Sou natural de Oeiras e resido a 23 anos em Teresina… mais ainda lembro-me muito bem da minha infância … Era uma alegria geral quando agente escutava o Bahiano gritar de longe… Meu pai ou minha mãe tinham q arrumar o dinheiro era certo o chupa-chupa de tamarindo o meu preferido. Até hj quando vou a Oeiras compro o chupa-chupa do bahiano…

  6. Este seu José Antonio,meu cun-cunhado,casado com minha cunhada Francisca, pais de meu amigo e querido Reinaldo dos Santos.Pessoas que considero e tenho respeito.Grande homem batalhador .Tem todo meu carinho.

  7. conheço ele desde os meus 12 anos, passei 10 anos sem ir na minha cidade, e quando eu cheguei em Oeiras depois de 10 anos ele me reconheceu.

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